“Le Front Populaire” na França, 1936 – Parte II

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Antonio Eduardo Alves Oliveira
professor UFRB e colunista Diário Causa Operária

Rascunho automático 67

A vitória eleitoral da Frente Popular representou uma expressão não somente do potencial da luta unitária contra a direita reacionária, mas foi entendida pelas massas populares, em especial pela classe trabalhadora francesa como um estimulo para a conquista das suas reivindicações e mais que isso impulsionou uma luta, ainda que embrionária, por um governo dos trabalhadores.
A mobilização política pela vitória da Frente Popular superava os marcos legais estabelecidos, marcos esses que a direção dos partidos que compunha a coalizão frente populista procuravam manter.
A crise econômica e a luta independente dos trabalhadores através de um formidável movimento grevista colocou em relevo a necessidade de uma alteração profunda no funcionamento do regime político francês.
A campanha eleitoral não significou a manutenção da inércia política tradicional do jogo parlamentar. O descontentamento político dos trabalhadores representado na votação massiva nos candidatos dos partidos da Frente Popular não se resumiu ao voto. Os trabalhadores rejeitaram uma política de espera pelas ações futuras do novo governo eleito, encabeçada pelo primeiro ministro socialista Léon Blum. Assim, mesmo antes mesmo da posse resolveu entrar em cena com seus próprios meios de ação.
Entre os dias 11 a 20 de maio, os estabelecimentos industriais e trabalhadores de diversas usinas entraram em greve, por reivindicações tradicionais rejeitadas pelos capitalistas francesas de maneira sistemática durante a crise econômica, como a redução da jornada de trabalho, direito a férias remuneradas, contra as demissões em massa, entre outras.
Além disso, os trabalhadores exigiam o direito de organização no interior das fabricas, como a instituição de delegações por locais de trabalho para evitar a degradação das condições de trabalho.
A partir do dia 28 de maio até meados de junho, o movimento ganha amplitude, atingindo praticamente as regiões mais importantes da França e avança ainda mais na sua radicalidade, com a ocupação generalizada das usinas, o que levou a classe dominante francesa a uma situação desesperadora.
A ocupação dos locais de trabalho pelos grevistas foi realizado inicialmente com um caráter defensivo, para evitar as demissões em massa e sobretudo o Lock-out patronal , nítida sabotagem do sistema produtivo pelos capitalistas.
As greves com a ocupação dos locais de trabalho foi se ampliando dentro da região parisiense, atingindo empresa após empresa , formando um cordão de controle operário desde do serviço público, metalúrgicas e as indústrias automobilistas como Renault e nas usinas de Boulogne-Billancourt ocupada por mais 30.000 trabalhadores ( Monier, 2002).
O movimento grevista não era apenas um movimento meramente sindical, mas indicava uma situação de duplo poder no interior do sistema produtivo francês. Os analistas classificavam de “ explosão social” para classificar essas jornadas, mas eram uma nítida situação revolucionária.
Segundo informações do ministério de trabalho francês, havia cerca de 1.830. 000 trabalhadores em greve, em mais 12 mil greves sendo três quartos destas com ocupação de fábrica. Um outro dado, sobre organização operária é o aumento do número dos filiados da CGT, que passou de 800 mil em março de 1936 para 4 milhões em dezembro do mês ano.
Dante do fracasso do ministro do Trabalho do governo Sarraut, Marcel Déat, nas negociações com os trabalhadores em greve, os capitalistas exigem a antecipação da posse do governo Léon Blum para o dia 6 de junho.
O próprio primeiro ministro da Frente Popular senta a mesa junto com os trabalhadores e capitalistas para negociar as reivindicações exigidas pelos grevistas no que ficou conhecido como “ l’accord Matignon” ( sede do governo em Paris, onde foi assinado o acordo).
Os patrões cedem em praticamente todas as reivindicações dos grevistas, o jornal Le Populaire escreve em sua manchete principal de 8 de junho, “ les patrons ont capitulé”, (os patrões capitularam).
Os patrões cedem em todas as linhas e as reivindicações que eram apresentadas antes da greve como impossível de serem conquistadas, como surgimento das férias remuneradas, a redução da jornada de trabalho de 48 para 40 horas a semana de trabalho, os salários foram majorados entre 7% e 15%, essas mesmas reivindicações foram todas acatadas.
Do ponto de vista da organização sindical foi permitido a atuação sindical e o estabelecimento das convenções coletivas. O parlamento francês (Chambre) votou quase por unanimidade (528 a 7) e posteriormente o Senado em 17 de junho as propostas acordadas l’accord Matignon.
Essa extraordinária vitória dos trabalhadores provocou uma intensa festa e comemorações dos trabalhadores franceses, que pela primeira vez na sua longa trajetória de luta, puderam gozar de férias remuneradas. As imagens e filmes da época, mostram o contentamento dos trabalhadores com o resultado do seu movimento grevista, “la fête Ouvrière.” (A festa Operária).
Para os capitalistas tinham evidentemente uma visão oposta, para um dos maiores capitalistas da França do ramo da siderurgia e gerente do Banque de France e senador comentou no momento das negociações de Matignon “ Tout le monde sent bien que le terrain cede sous les pieds” ( todo mundo sente bem quando o terreno cede sobre seus pés”( Monier, 2002).
É importante destacar que o movimento grevista somente foi contido com muita dificuldade pelos dirigentes sindicais, a estratégia de ceder dos patrões era na verdade uma medida defensiva diante do perigo da expropriação das fábricas ocupadas pelos trabalhadores.
Setores de esquerda do SFIO reafirmavam o programa tradicional da esquerda do partido socialista de nacionalização das empresas, assim Le Populaire afirmava em 27 de maio que “ Tout est possible” (Tudo é possível).
O papel do PCF é central na contenção do movimento, em 29 de maio, o jornal oficial do Partido Comunista diz “Tout n’ est possible”(Tudo não é possível) rejeitando uma mudança mais efetiva, e em 11 de junho, em uma grande manifestação popular e operária, o secretário-geral do PCF, Maurice Thorez faz o seu celebre discurso “Faut savoir terminer une greve” ( é preciso saber terminar uma greve).
Durante o governo da Frente Popular ( junho 1936 a junho 1937) e nos governos posteriores uma parcela importante das conquistas, sobretudo no terreno econômico foram retiradas pelo aumento da recessão econômica e da política deliberada dos patrões de colocar nos ombros dos trabalhadores o ônus da crise econômica. Entretanto, as conquistas dos operários franceses são retomadas na constituição do Estado de Bem Estar no pós-guerra e representaram uma importante sinalização da importância da luta política para conseguir reformas, entretanto contraditoriamente também mostraram os limites destas reformas.

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