Desenvolvimento combinado e desigual: ” A chave do enigma da Revolução Russa”

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Antonio Eduardo Alves de Oliveira
Professor UFRB e colunista Diário da Causa Operária

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As crises e revoluções em países de desenvolvimento capitalista retardatário relacionam-se com uma visão mais ampla do desenvolvimento desigual, ou do processo de desenvolvimento desigual do capitalismo no espaço, na economia e na sociedade.

A realização da Revolução Russa em 1917, acontecimento fundamental que inaugurou a era histórica da revolução socialista mundial, somente pode ser entendida efetivamente a partir apreensão da lei desenvolvimento desigual e combinado, que permitiu aos revolucionários russos tanto a compreensão analítica das condições históricas e sociais para a revolução, quanto das tarefas políticas que levaram a classe trabalhadora a conquista do poder político num país no qual se misturavam particularidades de uma nação imperialista e de um país atrasado, econômica e politicamente.

A lei do desenvolvimento combinado, própria dos países atrasados – no sentido de uma combinação original dos elementos retardatários com os fatores mais modernos- (…) é a chave do enigma da Revolução Russa”. ( Leon Trotsky, in Historia da Revolução Russa).

Num quadro mais amplo, é importante perceber como o processo de desenvolvimento e de formação social específica ocorre de forma não uniforme, através de mecanismos contraditórios em que a desigualdade relaciona-se com a combinação de aspectos distintos, por vezes contraditórios.
A essa dinâmica, Trotsky chamou de desenvolvimento desigual e combinado, ou seja, quando o processo histórico combina, de maneira híbrida, o passado e o presente, aproximando tendências e perspectivas diferenciadoras e uniformizadoras, ao mesmo tempo isso produz uma combinação sui generis dentro de um mesmo espaço social, provocando mudanças de forma desigual.

A condição para isso é a tendência à concentração capitalista em determinadas áreas e setores econômicos. Em algumas áreas existe um desenvolvimento do capitalismo em profundidade, enquanto em outras predomina uma produção anacrônica, sobretudo no campo, que acaba por entravar o desenvolvimento espacial de forma mais igual.

O desenvolvimento desigual refere-se ao desenvolvimento diferenciado das relações sociais capitalistas e dos setores sociais em um mesmo país atrasado do ponto de vista da estrutura tal noção tem sido utilizada para caracterizar as diferenças entre o urbano e o rural, já que historicamente as relações capitalistas são mais intensas no meio urbano, havendo a tendência ao desenvolvimento mais rápido de certas regiões em relação a outras.

O primeiro capitulo da sua obra História da Revolução Russa, Leon Trotsky dedica ao estudo das “Peculiaridades do desenvolvimento da Rússia” apontando que o traço fundamental do desenvolvimento histórico russo é a lentidão. Entretanto, no século XIX com o aprofundamento e ampliação do capitalismo no globo e sobretudo pela própria posição intermediaria entre Ocidente e Oriente da Rússia levará a uma mistura sui generis que conduz a “uma combinação original das diversas fases do processo histórico”.

Um país atrasado assimila as conquistas materiais e ideológicas dos países atrasados. Não significa que siga servilmente estes países, reproduzindo todas as etapas de seu passado” ( Leon Trotsky, História da Revolução Russa).

Não existe a mera repetição das formas de desenvolvimento dos países centrais. O processo de assimilação na Rússia das inovações sociais, econômicas e políticas será de uma maneira contraditória, proporcionando uma “ amálgama das formas arcaicas com as mais modernas”, aproximando as diversas etapas e combinando fases diferenciadas tendo “a desigualdade do ritmo como a lei mais geral do desenvolvimento histórico”. Aumentando a complexidade do processo revolucionário nos países atrasados.

“A orbita descrita toma, em seu conjunto, um caráter irregular, complexo e combinado”
Importante destacar que a Revolução Russa não foi uma explosão fortuita, é necessário considerar a longa luta política, que remonta ao século XIX, iniciada no Movimento Dezembrista (1825), que depois perpassou pelo movimento populista e posteriormente a assimilação do marxismo com a criação do partido operário e da constituição da direção revolucionária bolchevique.

Além disso, a revolução na Rússia não foi tampouco um acontecimento isolado, uma vez que aconteceu no bojo da Primeira Guerra imperialista mundial, que colocou em questão os alicerces da ordem capitalista mundial. Os desdobramentos revolucionários do enfrentamento entre as potências imperialistas já haviam sido prognosticados por Lênin, quando formulava claramente que “a guerra imperialista” impulsionaria uma “ guerra civil”, com catástrofes e revoluções.

Lênin vislumbrou a quebra da “cadeia imperialista no elo mais fraco”, ou seja, a situação da crise revolucionaria em um país intermediário era a expressão da crise capitalista de conjunto. Além disso, as próprias debilidades do império russo foram acentuadas pela maneira como um país intermediário insere-se na economia e na política mundial dominada pelo imperialismo.

Do ponto de vista político, a lei do desenvolvimento combinado e desigual explica a conduta covarde da burguesia diante das classes reacionárias. Assim, a fragilidade social, falta de apoio popular e profundo temor da classe proletária leva a burguesia preferir manter e sustentar a ordem conservadora, nutrindo por outro lado aliança com setores mais atrasados em especial no campo.

As tarefas da revolução democrático-burguesa (em primeiro lugar a reforma agrária), elemento fundamental da revolução, não estavam cumpridas e nem poderiam ser realizadas pela burguesia russa ligada aos imperialistas e às camadas mais reacionárias da sociedade russa, como os nobres e os grandes proprietários rurais. Por sua vez, os democratas e socialistas conciliadores recusavam a conquista do poder, preferindo uma política de aliança com a burguesia, uma vez que na visão desses setores (mencheviques e socialistas revolucionários) a Rússia era um pais atrasado que não tinha realizado a revolução burguesa, e portanto era preciso entregar o poder aos capitalistas antes de mais nada.

O Partido Bolchevique, sobretudo após as celebres Teses de Abril, de Lênin, combateu essa política de conciliação com os capitalistas (“Nenhum apoio ao governo provisório” , “ Todo poder aos sovietes”) apresentando claramente a necessidade da conquista do poder pela classe trabalhadora, formulando uma aliança entre os oprimidos como os soldados, camponeses e trabalhadores (“Paz, Pão e Terra”).

Essa política revolucionária bolchevique está alicerçada na convicção de que proletariado, apesar de minoritário no conjunto da população, mas altamente concentrado nos grandes centros, poderia realizar uma revolução através da articulação entre as tarefas democráticas e as tarefas socialistas (internacionalmente).

É importante assinalar a relevância da experiência da Revolução Russa de 1905 que serviu como grande “o ensaio geral” da revolução em 1917. Neste sentido, Lênin com a formulação “ditadura democrática dos operários e camponeses” já apontava para a possibilidade de uma participação dos operários no direção do Estado, através de uma aliança com os camponeses, para realizar as tarefas da revolução burguesa.

Por sua vez, Leon Trotsky, que tinha sido presidente do Soviete de Petrogrado na Revolução de 1905, chegou a conclusão não somente da possibilidade, mas inclusive da necessidade da conquista do poder político pela classe trabalhadora, mesmo em um país atrasado. A “revolução seria permanente”, ou seja, o proletariado não se deteria nas tarefas democráticas e adentraria nas medidas de caráter socialista na revolução.

É neste contexto, que são lançados os fundamentos da lei do desenvolvimento combinado, tendo como fontes: i)a análise dos textos de Marx sobre a luta de classes na França (que já discorria do caráter ininterrupto da revolução do ponto de vista da ação classe operaria a partir da análise do significado histórico da traição da burguesia e da pequena burguesia entre 1848 e 1871) e a experiência concreta vivenciada pelo autor na Revolução Russa de 1905.

Na História da Revolução Russa, Trotsky notou que as revoluções anteriores foram derrotadas devido o isolamento entre os revolucionários da cidade e a grande massa camponesa. O balanço do triunfo da Revolução Russa tem como um dos pontos centrais, o fato que os bolcheviques conseguiram tomar as tarefas da revolução burguesa da burguesia, isso na medida em que fizeram uma revolução proletária articulada com uma poderosa revolução camponesa (também com uma política democrática sobre as nacionalidades, “ autodeterminação dos povos”) derrotando tanto as classes reacionárias (os nobres e os grandes proprietários rurais) como a burguesia russa ligada aos imperialistas.

O desenvolvimento desigual e combinado sintetiza, no presente, momentos distintos do capitalismo, incorrendo na diferenciação social e, no caso, um amálgama de características sociais, culturais e econômicas entre as diferentes regiões. Assim, a teoria do desenvolvimento desigual e combinado, permite observar que, em países como o Rússia, havia, ao mesmo tempo, o mais moderno na economia e na cultura convivendo com o tradicional e até mesmo o arcaico nas relações sociais. Além disso, apontou o papel fundamental desempenhado pela classe operária na liderança e condução do processo revolucionário mesmo em um pais atrasado.

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