Como a pequena-burguesia vê a classe operária e a revolução, Rui Costa Pimenta

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Rui Costa Pimenta

Rascunho automático 67

Tive a oportunidade, recentemente, de ouvir uma preleção do deputado do PSOL, Jean Willys sobre a situação política brasileira muito esclarecedora do pensamento da esquerda pequeno-burguesa brasileira e internacional no seu conjunto.

Procurando explicar suas concepções sobre a situação nacional e o golpe de Estado no Brasil, o parlamentar do Rio de Janeiro foi questionado por um dos presentes sobre se havia sido feito um esforço de mobilizar os trabalhadores para derrotar o golpe.

Diante do questionamento, Willys sorriu e assinalou que aquela era uma posição da “velha esquerda”, que hoje há novas forças em ação como os movimentos feministas e LGBT. Acrescentou ainda que os trabalhadores, em muitos casos, batem nas esposas, são machistas e “homofóbicos”.

O dirigente do PSOL deixou claro com estas afirmações que considera que os trabalhadores não são revolucionários – conclui-se não seriam nem mesmo democráticos! – porque não teriam, da maneira como ele os vê, uma mentalidade liberal, ou seja, burguesa, sobre determinados temas, típica de uma parcela insignificante da classe média brasileira, os quais seriam os verdadeiros revolucionários.

Até certo ponto, tendo se declarado diante da audiência como o “único homossexual assumido do Congresso Nacional”, é natural que Jean Willys coloque tais questões como a pedra de toque daquilo que seria ou não revolucionário, do que é importante ou desimportante no que diz respeito à transformação da sociedade brasileira e do mundo. Cada indivíduo, assim como as classes sociais, tende a ver a realidade do ponto de vista dos seus interesses.  Sua posição, no entanto, nada mais é do que a transformação de uma determinada causa, a sua, no centro dos problemas políticos de hoje. É a transformação de uma circunstância em uma concepção universal. O feminismo, o movimento LGBT etc., principalmente do modo como o parlamentar carioca os vê, estão longe de ter a importância que ele lhes atribui e, por consequência, o poder transformador que ele pretende que tenham.

A criação desta verdadeira miragem política é possível porque nem o partido a que pertence o deputado, nem o próprio deputado orientam a sua atividade por meio de um programa político real, ou seja, de uma concepção objetiva, científica, da sociedade em que vivem. Seu ponto de vista é puro impressionismo político: como a classe operária atravessa uma etapa em que não aparece diretamente no primeiro plano da política mundial e do Brasil, ela deixou, para os Jeans Wyllis, de ser um fator já não digamos revolucionário, mas nem mesmo significativo.

O impressionismo conduz à ingenuidade política e a extravagâncias. A classe operária mundial e brasileira são infinitamente mais poderosas que quaisquer movimentos por questões tais como LGBT e feminismos diversos, em geral, uma fração minúscula, como já dissemos da classe média. Muito da força aparente desses movimentos vem diretamente da burguesia e, em particular, da burguesia imperialista, que os usa como uma válvula de escape das pressões sociais no interior das classes médias e um meio importante de cooptação política. A política brutal, genocida e profundamente opressora do imperialismo, inclusive e particularmente para as mulheres e homossexuais, fica encoberta por esta demagogia. As classes médias, como se sabe, são instrumento fundamental na dominação  da classe operária e do povo em geral pelos grandes capitalistas.

No panorama econômico e político da chamada era “neoliberal” e “globalista”, algumas parcelas intelectuais das classes médias viram-se como grande beneficiários. Enquanto que  o capitalismo globalizado paga uma miséria ao operário chinês que monta um computador, os programadores e técnicos de diversa ordem obtêm uma participação muito mais significativa, ainda que insignificante diante dos lucros estratosféricos dos capitalistas. A especulação financeira  apoiou-se em grande medida nas últimas décadas sobre os setores de alta tecnologia, os quais conseguiam abrir novos mercados diante da crise de superprodução que explodiu nos anos de 1970.

A ilusão de força que tais segmentos sociais têm – e que o nosso deputado expressa com grande convicção e otimismo – apoia-se neste fenômeno econômico transitório.

O movimento dos trabalhadores – que viram a contrapartida deste ascenso econômico na forma de um mercado de trabalho “global”, que promoveu a maior desvalorização da mão de obra mundial em toda a história – só pode ver as coisas com extremo pessimismo. O que também é um outro caso de impressionismo.

A ordem global estabelecida pelo Consenso de Washington cai aos pedaços. Este é o principal dado objetivo da situação. Os vitoriosos do Brexit, Trump, Marine le Pen, Geert Wilders e muitos outros representantes da extrema direita dos países imperialistas são a fratura exposta do regime mundial imperialista. A neutralização da classe operária mundial, a completa capitulação da esquerda em todos os seus matizes, e o enorme ônus da política globalista, agora protegida pelo escudo da democracia (Hollande, Obama etc.) conduzem ao crescimento da extrema-direita e ao colapso do sistema econômico em crise aberta desde 2008.

O esquema político que Jean Willys apresenta como sendo o futuro está praticamente morto e é apenas um reflexo do passado. O mundo todo caminha para uma imensa confrontação destes grande maciços sociais que são a classe operária e a burguesia mundiais. É para este desenvolvimento da situação política mundial que devemos nos preparar.

A pergunta do companheiro que queria saber da situação dos sindicatos e da classe operária no Brasil não é apenas pertinente, é, na realidade, a pergunta essencial. O golpe brasileiro demonstra por um lado, o acirramento das condições da luta de classes em um país de primeiro plano na cena mundial, mas, também, serviu para revelar a completa incapacidade da pequena-burguesia esquerda de responder à altura a este acontecimento histórico. Esta incapacidade chegou a um ponto tal que, na sua esmagadora maioria, esta esquerda pequeno-burguesa sequer conseguiu compreender que ocorreu um golpe de Estado no País

O grande fracasso do PT na luta contra o golpe foi o de não conseguir trazer à luta os grandes contingentes da classe operária cujas organizações dirige. Este fracasso tem um sentido político e está diretamente relacionado à predominância dos elementos pequeno-burgueses no aparato partidário. A direção deste aparato sobre a classe operária revela-se um freio absoluto.

A conclusão surge automaticamente na análise. A luta democrática no Brasil (e no mundo) depende fundamentalmente da classe operária e das suas organizações e a tarefa central de todo o próximo período é o trabalho para organizar uma vanguarda da classe operária detrás de uma perspectiva política de classe. O partido operário, ao contrário do que pensam os líderes da esquerda pequeno-burguesa, está na ordem do dia.

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