Quem tem medo de Jeremy Corbyn?

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No último mês todos os jornais ingleses repetem um mesmo mantra “Ou o partido trabalhista derruba Corbyn ou Corbyn levará o partido para o buraco”. Reforçam isso após os trabalhistas perderem uma eleição num antigo recanto do partido. Com o surgimento da extrema-direita inglesa, nesse momento representada pelo UKIP, com as últimas duas eleições terem sido vencidas pelos conservadores, a imprensa já anuncia o fim do Partido Trabalhista.

Mas, como o golpe de 2016 no Brasil ensinou pela prática, o que a imprensa diz normalmente é diametralmente oposto à realidade. O que está acontecendo na Inglaterra e por que Corbyn seria tão ruim? A Inglaterra está sofrendo de um fenômeno comum a todos os países imperialistas, só que talvez na sua forma mais agravada.

A política neoliberal se espalhou pelo mundo com uma série de derrotas do movimento operário, a principal delas talvez seja a greve dos mineiros ingleses contra Tatcher, depois disso a política de privatização e retirada de direitos e garantias reinou e reina, numa ou outra medida, até hoje.

Nesse processo, a burguesia organizou a tomada dos principais partidos de esquerda da Europa pela suas alas direitas, no Partido Trabalhista, o caso mais claro, foi Tony Blair que liderou a política neoliberal por um período, na França a ala representada por François Hollande, o mesmo se vê na Itália, nos EUA com os Clinton, entre outros casos similares.

Apesar desses partidos terem aplicado essa política, eles se mantiveram como principais representantes de seus respectivos proletariados. A Inglaterra se mantém o caso mais claro, agora depois de 28 anos do Consenso de Washington, a situação se tornou insustentável. Um setor da burguesia se revoltou contra o neoliberalismo e financia politicamente e economicamente uma oposição à globalização e aos mercados financeiros, essa é a extrema-direita, que obteve a sua primeira grande vitória na votação do Brexit.

No outro lado também se vê reações, as alas esquerdas de partidos como o Trabalhismo inglês já não admitem se submeter à direita, viram o desastre que foram os governos de Blair, Clinton, Renzi e outros. Daí surge Corbyn, representando as bases do partido, as centrais sindicais inglesas, ainda poderosas organizações de massa, iniciam uma insurgência dentro do seu próprio partido, o fenômeno pode ser visto também na França, e nos EUA, mas está claramente mais avançado na Inglaterra.

Corbyn hoje é líder do Partido Trabalhista, o que o torna também o candidato a primeiro ministro na próxima eleição geral, ela já enfrentou uma eleição e uma tentativa de golpe por parte da direita do seu partido, e agora sofre um bombardeio diário.

Chegaram a dizer que Corbyn iria tornar o Trabalhismo inelegível, chegaram a dizer que o Trabalhismo iria perder o título de “partido da classe trabalhadora” para a extrema-direita, como vemos setores, ainda minoritários, operários votando na direita em outros países da Europa. Um fato recente esclarece isso. Houve uma eleição especial numa cidade industrial inglesa, Stoke, onde disputaram o UKIP e os Trabalhistas, analistas chegaram a falar que seria um duelo para ver qual partido representaria os trabalhadores no país, o líder do UKIP candidatou-se pessoalmente, como num ato simbólico, e perdeu.

Onde falaram que a esquerda não teria sucesso, que apenas uma política como a dos Clinton poderia ser bem sucedida, a política de esquerda venceu, e mais, venceu por ser de esquerda. Na Inglaterra está bem claro que a extrema-direita recua a cada passo que o corbynismo avança, eles disseram que para impedir a extrema-direita é preciso uma política como a dos Clinton. Nos EUA o mundo foi espectador do resultado dessa política: a vitória de Trump.

Rascunho automático 67

O mais assombroso é que as classes dominantes estejam dispostas a destruir qualquer movimento mais radicalizado de esquerda, ainda que não revolucionário, mesmo que isso abra o caminho para a extrema-direita. A crise atual do Trabalhismo é como uma febre, é necessário vencer as contradições internas do partido, vencer a direita para que o partido possa desenvolver alguma política. Corbyn não está enterrando o Partido Trabalhista, mas talvez ele e os sindicatos que o apoiam possam impedir o partido de ser engolido pela direita.

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