Desastre à francesa: como a Frente Nacional veio a falar “em nome do povo”?

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Na última segunda-feira, 6 de fevereiro, Marine Le Pen, candidata pelo partido de extrema-direita, Frente Nacional (FN), candidatura já esperada, foi oficializada num comício em Lyon. Le Pen discursou de maneira dura, apresentando seu programa. Falou que a eleição não é apenas sobre o cargo executivo, mas sobre uma maneira de ver o mundo, que haveria duas maneiras de ver o mundo, a da globalização, do capital internacional, e a outra maneira, a campanha da Frente Nacional, intitulada “Em Nome do Povo”.

Nessa análise de conjuntura, a candidata da FN atacou todos os seus inimigos, chamou tanto os da esquerda, quanto os da direita, de candidatos do “dinheiro”, dos ricos, apresentou seu programa, saída da União Europeia, política anti-globalização, e finalmente, uma plataforma anti-imigração, repressiva, que procura reforçar as polícias e o exército, o fortalecimento do Estado policial.

Só o fato da FN estar liderando as pesquisas já é alarmante. Mas o mais grave é que sua candidata acusa todos de estarem vendidos aos bancos e ainda se coloca como candidatura popular e ninguém respondeu à altura. Falta autoridade perante o povo por parte da esquerda, como chegamos a esse ponto?

Para entender o que acontece nas cidades francesas hoje, é preciso entender quem está disputando, pela esquerda, a presidência da França. Com projeção eleitoral existem dois candidatos, Benoit Hamon do Partido Socialista Francês, e Jean Lúc Melánchon da coalizão França Insubmissa.

Melánchon e sua coalização de partidos pequeno-burgueses não têm inserção na classe operária francesa e seu programa nem tem esse objetivo. O país está sofrendo com os efeitos de anos de política neoliberal, com a política fiscal dura da União Européia, com empregos que foram migrados por conta da globalização, a qualidade de vida diminui progressivamente, o povo francês foi colocado junto aos EUA e ao resto da Europa para invadir o Oriente Médio numa guerra que não lhes pertence e não lhes importa. A esquerda que se diz radical não tem programa para isso, sem ter inserção na classe operária e sem ter um programa que permita essa inserção, não aparenta muito futuro para essa candidatura.

O Partido Socialista (PS) é a peça chave nesse cenário caótico. Durante anos o PS tem sido um bastião da política neoliberal dentro da França, o governo de Hollande defendeu essas medidas, defendeu a continuidade da comunidade européia como funciona hoje, tentou aplicar uma dura reforma trabalhista e foi recebido com grandes mobilizações sindicais, essa reforma liquidou o governo, inviabilizando até a reeleição de Hollande. O PS organizou eleições internas onde foi derrotada a ala neoliberal do partido, venceu Hamon, um representante da ala esquerda, Hamon. O PS é uma peça chave, pois é partido histórico e com inserção perante os trabalhadores, por seu tamanho

A eleição de Hamon muda um pouco o cenário político, mas pode ser muito pouco, muito tarde. O partido que já foi dirigido por Jéan Jaúres e Leon Blum precisa de uma política que apresenta uma saída para a crise, que se contraponha à FN. A eleição acontecerá apenas em abril, muito pode acontecer até lá.

Vendo a situação da esquerda, está bem claro por que a Frente-Nacional se acha na autoridade de falar em nome dos trabalhadores, um setor da esquerda não tem política nenhuma, e o outro, o mais importante, esteve profundamente comprometido com o neoliberalismo e tentou aplicar uma reforma trabalhista.

A campanha da FN é, em essência, demagógica. Se coloca, no discurso, contra os males do neoliberalismo, culpa os imigrantes e os árabes, que são bombardeados em seus países e depois transformados em mão de obra barata na Europa. A FN é um partido burguês, seu interesse não é dos trabalhadores e o Estado policial que se formará se eles forem vitoriosos não defenderá o povo, muito pelo contrário.

Se a FN vencerá ou não as eleições, é impossível dizer, os mercados financeiros estão jogando seu peso contra ela. Mas uma coisa é necessário dizer, seja agora ou depois, a extrema-direita não será contida pela burguesia.

Campanha Financeira 3

A extrema-direita precisa ser contida pelos próprios trabalhadores, a FN não pode falar em nome do povo e as organizações operárias precisam dizer isso, precisam denunciar a hiprocrisia. É preciso um programa que coloque o problema como ele é, não entre franceses e árabes, não entre a França e a Europa, mas entre os trabalhadores franceses e de todo o mundo contra o imperialismo.

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