O fim do cinema brasileiro na mira dos golpistas

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João André Silva

Rascunho automático 67

O tema desta semana será cinema, diretamente. O futuro, incerto, do cinema brasileiro. Desde que os golpistas tomaram o poder com a queda da Dilma com a votação do impeachment os ataques são generalizados contra todas as áreas sociais e também culturais. Não será diferente com o cinema. Não nos esqueçamos que o golpista Michel Temer acabou com o Ministério da Cultura assim que deu o golpe e logo depois voltou atrás devido à enorme repercussão.

No momento está em discussão a mudança de cargos de duas das principais agências de cinema do País, a Ancine (Agência Nacional de Cinema) e a SPCine (Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo) recém criada na capital paulista na gestão de Fernando Haddad (PT). Mas o que essa mudança na direção dessas entidades poderia afetar o cinema brasileiro? Diante do golpe? Muita coisa.

O cinema brasileiro desde o começo deste século vem tendo um desenvolvimento muito significativo na área que vai de um aumento de público, salas exibidoras, receita e produção de filmes. A Ancine foi criada em meados de 2001 sob a pressão do setor que exigia um órgão para regulamentar o cinema que estava órfão desde a extinção da Embrafilme, no inicio da década de 1990, durante o governo Collor que provocou uma derrocada em todo o setor. A agência, atualmente com o comando do diretor-presidente, Manoel Rangel há dez anos, aumentou a inserção das produções nacionais no mercado, ampliou o número de salas, principalmente em regiões como o Nordeste e desenvolveu um mercado bastante promissor.

Para deixar mais claro esse avanço vai aqui alguns números do cinema brasileiro. O número de produções cinematográficas entre os anos de 2002 e 2015 subiu de 29 par 139 filmes. No mesmo período o número de ingressos vendidos saltou de 90 milhões para 173 milhões. Destes números a maioria são para produções internacionais, mas o cinema brasileiro tem uma fatia de cerca de 30%. Na região Nordeste o número de salas abertas no período de 2011 a 2016 foi de 1.018, crescimento de 60%. E em dinheiro o mercado cinematográfico brasileiro movimentou 24,5 bilhões de reais no ano de 2014, somente com produções audiovisuais nacionais. A título de comparação em 2007 a arrecadação foi de 7,8 bilhões de reais. É o quarto maior setor no País perdendo apenas para os mercados de telecomunicações, tecnologia da informação e montadoras de automóveis.

Já a SPCine, empresa pública criada em janeiro de 2015 provocou um avanço bastante significativo na produção e exibição de filmes na cidade de São Paulo. Vale ressaltar que o estado de São Paulo, além de ser o maior cidade do País e mais desenvolvida concentra 30% das classes C, D e E que nunca foram ao cinema. Em pouco menos de um ano, a SPCine criou um circuito exibidor de 20 salas de cinema populares, sendo 17 delas com entrada gratuita, e que em oito meses de funcionamento levou um público de 250 mil pessoas ao cinema, a maioria instaladas nas periferias de São Paulo, nos chamados CEUs (Centros Educacionais Unificados) que foram equipados com salas de cinema bastante modernas. Os filmes exibidos gratuitamente são os mesmos que estão no circuito comercial. Os ingressos são custeados pela Secretaria de Educação, ao custo de R$ 5 milhões anuais. A agência de cinema paulista também desburocratizou a liberação de filmagens na cidade o que antes era uma verdadeira peregrinação na qual os produtores percorriam varias secretarias para conseguir a liberação para poder registrar em imagens a cidade da garoa. Entre maio e outubro deste ano foram feitas filmagens de propaganda televisiva, miniséries, séries, documentários, curtas e longa-metragens em mais de 1400 pontos da cidade gerando uma receita de 176,9 milhões de reais.

Mas é notório que o cinema brasileiro e o mercado de audiovisual no Brasil é muito aquém do tamanho do País. Cerca de 90% dos municípios não possuem salas de cinema. Atualmente são pouco mais de 3000 salas em todo o País, distribuídas em cerca de 300 municípios, dos seis mil total. Seria mais ou menos uma sala de cinema para cada 70 mil habitantes. O Brasil, neste quesito, está muito atrás de outros písaes. No México a média é de uma sala para 35 mil habitantes e nos Estados Unidos uma sala para menos de 10 mil habitantes. Desde a década de 1970 que o País não tem um número semelhante de salas de cinema. Ou seja, é um mercado que tem muito para desenvolver, mas tudo isso está seriamente ameaçado.

Os mais céticos e ingênuos vão dizer que o título desta coluna é mais um exagero do PCO. O cinema brasileiro acabar? Impossível! Não duvidem. Os golpistas estão acabando com tudo que os trabalhadores e a população conquistaram nas últimas décadas. Previdência social, CLT, programas sociais, direitos legais, direito à saúde e educação gratuitas, liberdade de expressão e organização política e muito mais. A Ancine, depois de 10 anos sob o comando de Manoel Rangel vai ter novo diretor, ainda não se sabe qual. Provavelmente um golpista capacho do imperialismo que vai favorecer ainda mais o cinema estrangeiro. A SPCine além de ter o atual diretor, Alfredo Manevy, trocado, já sofreu boicote do governo estadual do tucano Geraldo Alckmin quando não recebeu cerca de R$ 25 milhões de investimento o que poderia ter resultado em 83 novas salas de cinema públicas e não as 20 atuais. E agora a cidade de São Paulo está nas mãos do prefeito milionário e almofadinha do PSDB, o golpista João Dória, que vai privatizar tudo,  até o Parque do Ibirapuera, restringir a gratuidade do transporte público para idosos, criar pedágio urbano, acabar com a Virada Cultural e com o carnaval de rua. Dória extinguiu as secretarias de Política para Mulheres, Promoção da Igualdade Racial e Direitos Humanos.  Será que ele vai manter cinema de graça na periferia? Dória vai ter como Secretário de Cultura um empresário de cinema, André Sturm, dono do Cine Belas Artes, e elegeu como presidente do conselho da Secretaria de Cultura José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-chefe da golpista Rede Globo que comandou a emissora do Golpe na época da ditadura militar brasileira e durante o governo FHC, foi o responsável, entre outras coisas, pela manipulação do famoso debate entre Lula e Collor. Com um panorama desses será que a SPCine sobrevive? No mínimo será privatizada.

Que fique claro que a direita é inimiga da cultura. E o setor cultural, em especial o cinema, vide todo o caso de “Aquarius” e protestos em festivais de cinema nacional, é um dos setores culturais mais resistentes ao golpe. A direita golpista não vai dar trégua. Não vamos deixar!

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