“House of Cards” à brasileira

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João André Silva

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FHC ou FJU? Fernando Henrique Cardoso ou Francis J. Underwood? Nem os roteiristas de cinema poderiam superar “o roteiro”  que envolve a política brasileira atualmente. A escalada golpista no Brasil está prestes a repetir, devidas as proporções, o roteiro da série do canal de streaming Netflix, “House Of Cards”. A eleição de um presidente sem nenhum voto.

Para os menos “antenados” aqui vai a explicação do porquê da comparação. Na série de sucesso, baseada na minissérie homônima britânica, um parlamentar, líder do Partido Republicano no Congresso, chega ao salão oval da Casa Branca sem sequer ter recebido nenhum voto. Este é Frank Underwood, interpretado de maneira visceral pelo ator Kevin Spacey que utiliza de todas as artimanhas e golpes, grandes ou pequenos, para chegar ao topo da liderança nos Estados Unidos. Passando por cima de tudo e todos.

Na vida real brasileira temos Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, ex-professor da USP, aposentado, que diga de passagem, recebe supersalário da universidade e ex-presidente da República, que diga de passagem, vendeu o Brasil nos dois mandatos que teve na década de 1990, com chances reais de chegar à presidência novamente, sem nenhum voto popular. A coincidência é assustadora, em todos os sentidos. E no caso do Brasil, até mais surpreendente já que FHC sequer exerce no momento função parlamentar.

Frank Underwood, derrubou o vice e depois o presidente.
Frank Underwood, primeiro derrubou o vice e depois o presidente.

Frank Underwood foi “eleito” presidente depois de derrubar o vice, e tomar o seu lugar, e por fim arquitetou toda uma campanha de difamação contra o presidente o que provocou sua renúncia e por consequência assumiu a presidência da maior potência econômica do planeta.

Já FHC, pode chegar à presidência depois de um golpe de Estado em que uma presidenta foi deposta do cargo sem nenhuma prova, seu vice, golpista, Michel Temer, assume e agora é alvo dos golpistas que querem derrubá-lo e no lugar colocar ninguém mais, ninguém menos que o ex-presidente, via uma eleição indireta por meio do Congresso Nacional, também golpista.

FHC, derrubou a presidente e agora o vice.
FHC, primeiro derrubou a presidenta e agora o vice.

Na série é possível saber os detalhes, muitos deles sórdidos, do plano maquiavélico de Frank Underwood para assumir a presidência, com suborno e chantagem de parlamentares, manipulação via imprensa, uso da violência e até assassinato. Já no caso brasileiro não é possível ter essa riqueza de detalhes, mas não sejamos tolos em achar que os mesmos elementos, não necessariamente todos, também estejam na trama golpista brasileira. Com destaque para a participação, decisiva, da imprensa cartelizada, no golpe. Uma participação, aliás, centenas de vezes superior em número e grau que a apresentada na série. Enquanto em “House of Cards”, o golpista manipula uma repórter para influenciar a opinião pública, no Brasil, existe uma operação de toda a imprensa. Praticamente todas as redes de TV e os principais jornais e revistas trabalham, diariamente, insistentemente e incansavelmente em favor do golpe. Não nos esqueçamos também do papel primordial do Judiciário e da Polícia Federal para impulsionar a política golpista. De fato, a trama brasileira, neste sentido, é bem mais elaborada e complexa que a da série.

Em “House Of Cards”, Frank Underwood é o protagonista e o arquiteto da empreitada para levá-lo ao poder. Por aqui não dá pra saber a real participação de FHC no golpe, mas que ele teve e tem um papel bastante ativo na derrubada de Dilma isso é incontestável. FHC fez campanha aberta a favor do impeachment de Dilma Rousseff. É, sem nenhuma dúvida, um dos articuladores do golpe. Fez declarações, via imprensa golpista, criticando o PT e até pedindo que Dilma renunciasse para que tivesse uma “saída digna”, mesmo, assumindo ele, que ela não tivesse cometido crime algum.

Por que FHC? Ele é membro do principal partido por trás do golpe, o PSDB. Desempenhou com maestria, a política imperialista no Brasil, nos oito anos dos seus dois mandatos (1995 a 1998 e 1999 a 2002), vendendo grande parte das empresas estatais brasileiras a preço de banana para a burguesia imperialista norte-americana e europeia. Mas o currículo de serviços prestados aos Estados Unidos é de longa data. No final da década de 1960, em plena ditadura militar, foi financiado pela CIA, via um dos seus “braços”, a Fundação Ford. O objetivo? Fazer campanha em favor da maior dependência econômica dos países sulamericanos ao imperialismo norte-americano. Com o dinheiro da CIA fundou o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), fachada para que FHC, por meio de palestras e livros, fizesse campanha pró-imperialista. Na época lançou, com o economista chileno Faletto, o livro “Dependência e desenvolvimento na América Latina”, que defendia a tese de que países em desenvolvimento ou mais atrasados poderiam desenvolver-se mantendo-se dependentes de outros países mais ricos. Como os Estados Unidos.

Enquanto FHC posava de esquerdista se exilando no Chile financiado pela CIA, intelectuais, artistas e trabalhadores estavam sendo perseguidos, torturados, mortos e muitos fugindo do Brasil. Ou seja, é um funcionário prestativo e valioso para defender os interesses golpistas norte-americanos. Peça fundamental do golpe.

A campanha pró-impeachment de Michel Temer, cultivada pela direita e também pela esquerda pequeno-burguesa e amplificada pela imprensa golpista não passa de um desenvolvimento do golpe no Brasil. Os golpistas querem aprofundar, ainda mais, os cortes dos gastos públicos e as medidas contra a economia nacional e para tanto estão descartando o aprendiz de golpista, Temer, para colocar no lugar alguém mais gabaritado para servir aos interesses imperialistas, o maior vendilhão das riquezas nacionais da história recente do Brasil.

O impeachment de Temer não é nada mais que um “Volta FHC”. É preciso que os trabalhadores e a população não se enganem.  A tarefa do momento é derrotar o golpe. Derrubar Temer e todos os golpistas.

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