Um Fórum Social fora do mundo real

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Participamos na última semana das atividades do Fórum Social Mundial, em Salvador.

Apresentado por muitos como um encontro internacional da esquerda, o evento refletiu justamente a enorme confusão política instalada no interior da esquerda pequeno burguesa.

O evento foi realizado no País que, desde 2016, vive um golpe de Estado, mas esse problema fundamental passou longe das preocupações de seus organizadores e das principais correntes de esquerda que ali intervieram.

O golpe de Estado no Brasil se aprofunda e caminha em direção a uma ditadura militar, com a intervenção militar no Rio de Janeiro e proximidade da prisão da maior liderança popular do País e de toda a América Latina, ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em aberta violação à Constituição. Na mesma semana em que se realizou o Fórum, ocorreu o assassinato da vereadora Marielle Franco, do Psol, que elevou enormemente a temperatura política do País. Nem mesmo estas circunstâncias foram levadas em consideração pelos organizadores do encontro.

Ao contrário disso, a esquerda acadêmica, universitária e “cirandeira”, de um modo geral, procurou realizar o encontro à margem dessa realidade, evidenciando o predomínio da política dos setores que defenderam – e ainda defendem – a tese absurda e sem qualquer base na realidade, de que não houve golpe. Semeiam a ilusão de que a situação atual será ultrapassada por meio de “eleições democráticas” que nunca existiram no País, mas que agora se mostram como impossíveis de se darem nas condições dadas.

Destaca-se o fato de que o principal evento do FSM, o ato no Estádio do Pituaçú, com a presença de Lula e do ex-presidente de Honduras, Manuel Zelaya, foi visivelmente sabotado pela principais entidades organizadoras do evento e pelo próprio governador petista da Bahia, Rui Costa, que dias antes deu inúmeras declarações na defesa de que o partido busque um “plano B”, ou seja, sem a presença de Lula como candidato presidencial e a favor de alianças com partidos golpistas, obviamente preocupado com garantir a sua própria reeleição.

Nestas condições, em um Estado em que o PT e Lula desfrutam de enorme popularidade e, justamente, na semana em que foi anunciada a data do julgamento dos embargos apresentados pela defesa do ex-presidente à condenação fraudulenta referendada e ampliada pelos desembargadores do TRF-4, de Porto Alegre, estabelecendo quase que certamente a sua prisão, o ato contou com menos de 5 mil pessoas.

A ex-presidenta Dilma, por sua vez, foi colocada para falar, no lançamento do comitê internacional em defesa da democracia e da candidatura de Lula, em uma tenda com apenas cerca de 300 lugares, ficando centenas de pessoas do lado de fora, sem poder participar da atividade.

Nem mesmo a morte da vereadora Marielle, vítima da intervenção militar e do estado de terror contra o povo, agora, comandado diretamente pelos militares – que ameaçam ampliá-lo para todo o País – provocou uma alteração no clima burocrático e fora da realidade do encontro. A passeata organizada durante o evento foi feita sem uma articulação geral, no mesmo horário da atividade com a presença de Dilma e com o caráter não unitário e claramente propagandístico de setores do Psol.

De um modo geral, neste quadro dispersivo, o FSM em muito se assemelhou a uma grande feira livre ou a um congresso da UNE, quando certos setores de sua direção, como o PCdoB, buscam levar alguns milhares de jovens para um encontro no qual a discussão sobre os problemas centrais do País e a própria luta dos estudantes – de fato – não existem e o único interesse é contar votos para eleger a nova direção. No caso do FSM não havia essa disputa mas se repetiram velhas práticas, como a tentativa de esconder os partidos de esquerda, inclusive, com normas reacionárias que impediam a realização de eventos organizados diretamente pelos partidos que, para faze-lo, se ocultavam por detrás de organizações sociais.

Esta política ultra-reacionária levou a que a organização do encontro tentasse, sem sucesso, impedir a realização de um debate convocado para uma sala da UFBA – isto mesmo, em uma universidade pública – justamente tendo como tema “A luta contra o golpe, a prisão de Lula e a intervenção militar”, que se realizou com a presença de mais de 40 pessoas, no dia 16, contando – inclusive – com a presença do reitor daquela Universidade em sua abertura.

As posições de setores reacionários da esquerda organizadora do Fórum ficou ainda mais evidente quando, no último dia do evento, tentaram forçar os militantes do PCO que montavam banca de materiais do Partido e com materiais da campanha contra a prisão de Lula a recolher as bandeiras do Partido, o que gerou protestos, inclusive, de dezenas de ativistas de esquerda presentes no encontro e que forçou os “sem partido” a recuarem.

Esta atitude deixou evidente o enorme incômodo desses setores conservadores da esquerda pequeno-burguesa, que vivem fora da realidade, de que a maior de todas as campanhas realizadas no encontro, feita pelos militantes do PCO e dos Comitês de Luta contra o golpe, fosse a campanha contra a prisão de Lula, que recebeu a adesão de milhares de participantes, expressando-se em números bastantes significativos: foram distribuídos cerca de 20 mil cartazes e 15 mil adesivos; recolhidos mais de R$ 8 mil, sendo a maior parte deles em um único dia, destacando-se a coleta realizada no estádio do Pituaçu onde foram recebidos R$ 2.042,00 em pequenas contribuições, em milhares de moedas e notas miúdas. Centenas de pessoas retiraram material para levar a campanha para cidades do interior da Bahia, outros Estados e até outros países.

Opondo-se à política dominante na organização do Fórum e no governo da Bahia de “virar a página da luta contra o impeachment“, ou seja, de capitular totalmente diante da direita e buscar se entender com os golpistas também foram colhidas no FSM milhares de assinaturas pela anulação do impeachment da presidenta Dilma, por militantes dos comitês pela anulação do impeachment e de luta contra o golpe.

Desta forma, se expressaram no FSM as tendências à polarização política, entre a direita golpista (apoiada pela capitulação de setores da esquerda) e uma crescente parcela da esquerda que de forma mais consciente, como o PCO, ou menos, acompanham a tendência combativa presentes na situação a uma mobilização revolucionária contra a prisão de lula, pela anulação do impeachment e pela derrota do golpe de Estado.

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