Oscar Niemeyer, 110 anos

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Oscar Niemeyer, 110 anos

Há 110 anos, em 15 de dezembro, nascia Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho (1907-2012), o maior arquiteto brasileiro de todos os tempos, e um dos maiores arquitetos do mundo no século 20. A extensão e a qualidade da obra de Niemeyer, frutos de uma excepcional capacidade de trabalho, são imensuráveis. Dentre os milhares de projetos que elaborou, estão por exemplo o Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, o edifício sede das Nações Unidas, em Nova York, o parque do Ibirapuera, em São Paulo, o conjunto monumental de Brasília, a sede do Partido Comunista Francês, em Paris, o parque de exposições de Tripoli, no Líbano, ou a universidade de Constantine, na Argélia.

Comunista desde 1947, amigo pessoal de Luís Carlos Prestes (1898-1990) e de Fidel Castro (1926-2016), o arquiteto chegou a ceder a casa onde funcionava seu escritório, na rua Conde de Lage, na Glória, para as atividades do PCB. Embora Niemeyer não tenha sido um militante diretamente envolvido em atividades políticas do Partido, seu apoio ao comunismo sempre foi incondicional, e estreitamente ligado à sua visão sobre programas habitacionais, que para o arquiteto só se resolverão definitivamente com a revolução. Niemeyer sempre manteve a independência de sua posição política e autonomia ideológica para desenvolver os mais diversos edifícios que hoje conformam a paisagem de nossas cidades e de nosso país.

Neto de um ministro da Suprema Corte e filho de um pequeno comerciante, Niemeyer em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, tendo-se formado pela Escola Nacional de Belas Artes em 1934. Aproximou-se então de Lucio Costa (1902-1998), que fora brevemente diretor da Escola em 1931, promovendo na instituição uma exposição de arquitetura moderna, em que se faziam sentir as influências das vanguardas russas pós-revolucionárias, presentes por exemplo na obra de Gregori Warchavchik (1896-1972) – ucraniano radicado no Brasil, ou por via indireta por meio da influência de arquitetos como Walter Gropius (1883-1969), Mies van der Rohe (1886-1869) ou Le Corbusier (1887-1965).

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Obra do Berço.

Já em seus primeiros trabalhos, como na Obra do Berço (1937), Niemeyer compreende as possibilidades e limitações daquele novo vocabulário formal em sua adaptação ao ambiente brasileiro. Por um lado, a abertura ilimitada dos pilotis e das fachadas de vidro, típicos das vanguardas europeias, ganhava um novo significado ao descortinar a paisagem tropical. Por outro lado, a necessidade de proteção solar tornava necessária a adoção de elementos de proteção, como os tradicionais cobogós (elementos vazados de cerâmica ou concreto), ou os brise soleil – placas móveis sobrepostas às fachadas.

O regime de Getúlio Vargas se baseava em grande parte na construção de um mito nacional capaz de dar conta das correntes políticas desagregadoras presentes por exemplo em São Paulo. Para tanto, adotou-se o discurso das três raças elaborado desde o século 19, em que negros, índios e portugueses teriam se fundido numa mistura única, conforme ressaltada por ideólogos como Varnhagen ou Gilberto Freire. Nessa narrativa, o europeu tinha evidente premência, e desde o movimento da arquitetura neocolonial se buscava a mistura de estruturas espaciais e programas contemporâneos a elementos construtivos típicos da tradição lusa, como azulejos pintados, telhado cerâmico etc.

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Ministério da Educação e Saúde Pública.

Naquele mesmo ano de 1937, Niemeyer participou da equipe de Lucio Costa que elaborava o projeto da Cidade Universitária do Rio de Janeiro e do edifício sede do Ministério da Educação e Saúde Pública, com a consultoria do célebre e influente arquiteto franco-suíço Le Corbusier, com quem também iniciaria longa amizade a partir de então. No edifício do Ministério, foi Niemeyer quem propôs a elevação dos pilotis de 4 para 10 metros, de modo a permitir uma maior integração entre os dois lados da praça formada pela implantação aberta pela torre.

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Grande Hotel Ouro Preto.

Em 1938, com a participação de Lucio Costa no processo de criação do atual Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –, Niemeyer foi encarregado de elaborar o projeto para o Grande Hotel de Ouro Preto, em que realiza uma elaborada fusão de elementos francamente modernos, como o pilotis de alturas variáveis, os amplos panos de vidro do saguão, a azulejos tradicionais portugueses, muxarabis nas varandas, e uma cobertura em telhas cerâmicas. Eram ensaios rumo à síntese nativista almejada pelo regime político.

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Casa do Baile, Pampulha.

Em 1940, o então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek (1902-1976) encomenda a Niemeyer a elaboração de um conjunto de pequenos edifícios de lazer às margens da represa da Pampulha, na região norte de Belo Horizonte. O arquiteto projetou então o Cassino, a Casa do Baile, o Iate Clube, a Igreja de São Francisco de Assis e o Golfe Clube, materializando neles a mais acabada e cuidadosa expressão de uma face única das vanguardas modernas que viria a ser conhecido como Estilo brasileiro, caracterizando-se não apenas pela fusão com elementos da arquitetura tradicional luso-brasileira como também pela integração com a paisagem natural, e pelo uso de diversas formas curvas – ou formas livres – possibilitadas pela maleabilidade do concreto moldado in loco e pela independência entre estrutura portante e paredes de vedação. As obras dessa fase de Niemeyer, que se estenderia por 18 anos, caracterizam-se pelo amplo uso de cores e texturas, pela integração à paisagem – quer natural, quer urbana – e por uma crescente habilidade em resolver programas complexos com edifícios simples e bem resolvidos, como o conjunto do Ibirapuera (São Paulo, 1950), ou o colégio Estadual Central (Belo Horizonte, 1954).

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Edifício Copan.

Também nessa época, o arquiteto constrói grandes experimentos habitacionais, como o edifício Copan (São Paulo, 1951) ou o Conjunto Governador Kubitschek (Belo Horizonte, 1951). Os edifícios eram concebidos como transatlânticos, em que o fim do trabalho doméstico, e a emancipação da mulher permitiriam a redução das cozinhas e áreas de serviço das unidades habitacionais, transferindo-se essas funções para lavanderias, cozinhas e restaurantes nas áreas de uso comum dos edifícios. Problemas na construção dos edifícios e dificuldades em sua comercialização dentro de uma lógica de mercado, porém, levaram a um longo e relativo fracasso daquelas experiências, subutilizadas, carentes de políticas de administração e manutenção, foram estigmatizados como favelas verticais até o final do século 20, quando a valorização das áreas centrais passou a atrair a pequena burguesia para esses edifícios.

Em 1946, Niemeyer foi convidado para compor a equipe internacional liderada pelo americano Wallace Harrison (1895-1981), encarregada de projetar o edifício sede das Nações Unidas em Nova York. Le Corbusier também fez parte da equipe, dividindo o programa em três blocos – uma torre administrativa, o secretariado, e a assembleia geral. Foi Niemeyer porém quem definiu a estratégia de implantação dos edifícios, criando uma praça que ligava a cidade ao rio Hudson. O esquema do brasileiro seria o desenvolvido por Harrison para a construção do edifício.

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Niemeyer e o restante da equipe que elaborou o projeto da sede das Nações Unidas, em Nova York.

Se a parceria de Niemeyer com Juscelino Kubitschek havia sido prolífica quando da passagem deste pela prefeitura de Belo Horizonte e pelo governo de Minas Gerais, ela atingiria seu apogeu na construção de Brasília – uma das metas do político mineiro, que pretendia encomendar o projeto da cidade ao arquiteto. Ainda em 1956, sem plano urbanístico para a cidade, Niemeyer projetaria o Palácio da Alvorada (residência oficial do presidente) e o Brasília Palace Hotel, ambos às margens do futuro lago Paranoá, que ainda não existia. Diante da pressão do Instituto dos Arquitetos do Brasil, organizou-se um concurso nacional de projetos para o plano piloto da cidade, vencido em março de 1957 pelo antigo mestre de Niemeyer, Lucio Costa.

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Esplanada dos Ministérios e Praça dos Três Poderes (Foto: Joana França).

Niemeyer e sua equipe foram contratados como funcionários da Companhia Urbanizadora da Nova Capital – Novacap, e realizaram dezenas de projetos de arquitetura e desenho urbano para a nova capital do país. Toda a Esplanada dos Ministérios e a sede dos poderes da República – o Palácio do Congresso, o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal – são da lavra de Niemeyer. Nos trabalhos de Brasília, o arquiteto inicia uma nova fase em sua obra, em que não mais se expressaria por elementos secundários, colocando foco na solução estrutural e nas formas plásticas puras definidas em volumes cada vez mais simples. Essa maturidade significava o abandono do viés decorativo próprio da fase inicial e também a adoção de estruturas espaciais clássicas (como a estrutura circundando o edifício).

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Instituto Central de Ciências da UnB, em construção.

Também nessa época, Niemeyer passa a trabalhar com elementos pré-fabricados de concreto, muito usados na União Soviética no pós-guerra. Durante o governo de João Goulart, em 1962, quando da encomenda dos edifícios da Universidade de Brasília, Niemeyer envia o jovem arquiteto João Filgueiras Lima (o “Lelé”) a Moscou para realizar um treinamento em técnicas de pré-moldagem. O resultado dessa experiência seria um brilhante conjunto de edifícios como o Instituto Central de Ciências (o Minhocão), com 750m de comprimento, e os blocos de serviços gerais.

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Sede do Partido Comunista Francês, Paris.

O amplo reconhecimento internacional o levaria ao Oriente Médio, onde projetaria a Feira Internacional e Permanente do Líbano (Trípoli, 1962), ou a universidade de Haifa, em Israel (1964). Com o golpe militar, e o endurecimento do regime, Niemeyer decide fazer valer seus contatos políticos e seu reconhecimento profissional e muda-se para Paris, numa temporada que se estenderia até o final da década de 1970, quando da redemocratização do país. No exterior, projeta por exemplo a sede do Partido Comunista Francês (Paris, 1967), a sede da editora Mondadori (Milão, 1968), a sede da bolsa do trabalho de Bobigny (1972), a praça de Le Havre (1972). Com a ascensão da Frente de Libertação Nacional na Argélia, Houari Boumédiène leva o arquiteto e sua equipe àquele país, onde projetariam a Universidade de Constantine em 1969, além de uma não construída mesquita considerada “revolucionária” pelo líder socialista argelino.

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Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

De volta ao Brasil, Niemeyer seria convidado por praticamente todos os líderes políticos para realizar grandes obras públicas, adotando uma linguagem caracterizada por grandes superfícies brancas contrastando com aberturas de vidro preto em volumes cada vez mais abstratos. Nessa última fase houve obras controversas como o memorial da América Latina (São Paulo, 1987), ou o Centro Cultural da República (Brasília, 2004), famosas pela aridez dos espaços. Por outro lado a genialidade e capacidade de síntese do arquiteto ainda podia-se apreciar nas obras do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1991) ou na readaptação e complementação de uma escola que ele mesmo projetara em Curitiba para a criação do museu em Curitiba batizado com seu nome (2002).

Durante toda a sua trajetória, Oscar Niemeyer manteve a independência absoluta de seu pensamento político e artístico, qualquer que fosse seu cliente, qualquer que fosse a obra. A abertura dos espaços e o caráter público com que sempre configurou seus edifícios é uma contribuição permanente para a cultura brasileira, que afirmou-se no mundo de modo resoluto a partir do gênio desse notável criador que superou em produtividade e capacidade de articulação política todos os europeus considerados grandes mestres da arquitetura moderna, como Walter Gropius, Le Corbusier ou Mies van der Rohe. De personalidade simples e prática, Niemeyer manteve por toda vida seu engajamento político na luta por um mundo sem classes e livre da opressão do homem pelo o homem.

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