Culture in chains – um país sob o domínio dos conservadores

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O livro de Susan George aponta para o sequestro da cultura dos Estados Unidos por uma direita conservadora e fundamentalista

Afonso Teixeira

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Em 2008 foi lançado internacionalmente o livro Hijacking America, cujo título original era La Pensée enchaînée, da escritora e sociólogo franco-americana, Susan George.

Quando recebi o manuscrito para a fazer a tradução para a edição brasileira, o livro ainda não havia sido publicado em inglês, e devia ter o título de Culture in chains (o título sugerido por mim era A cultura agrilhoada, pois tinha como base uma frase que aparece ao final do Manifesto comunista: “os operários nada têm a perder a não ser os seus grilhões”) . Quando a edição ficou pronta, em meados de 2007, aproximavam-se as eleições nos Estados Unidos. Com a vitória de Barack Obama, do Partido Democrático, a editora teria desistido da publicação.

Foi um problema de consideração. O livro mostrava o avanço da direita em todas as áreas da cultura e da política nos Estados Unidos, referindo-se, sistematicamente ao governo de George W. Bush, do Partido Republicano. É provável que, devido à vitória dos democratas, a Editora pensou que a tese do livro já não mais se aplicava.

Foi um engano, pois no próprio livro havia uma advertência: “não importa qual partido venha a ganhar as eleições presidenciais…” A tese era outra: o avanço da direita sobre as instituições políticas e culturais do país já se havia concretizado.

Esse avanço deu-se em diversas áreas da cultura: no ensino, na pesquisa, nas publicações e no meio acadêmico.

Nos Estados Unidos da América, são os Estados que determinam a política educacional. E vários deles permitem que o aluno, em vez de ir à escola, tenha educação em casa. Mas quem é o responsável pela educação desse aluno? Em geral os próprios pais, os quais, na maioria das vezes não têm qualificação para tanto. Então, tornam-se reféns da igreja que frequenta, onde os pastores e sacerdotes acabam por indicar os livros que as crianças devem ler e a maneira pela qual ela deve ser educada. A Igreja Batista, por exemplo, publica diversos livros destinados à escola doméstica. Alguns deles, verdadeiras aberrações, tratando a homossexualidade como doença, fazendo chacota das pesquisas geológicas que indicam a presença de vida na terra há milhões de anos (pois, segunda a Bíblia, o mundo não poderia ter mais do que seis mil anos), etc.

Além disso, há universidades preparadas especialmente para receber alunos que tiveram educação escolar em casa. São universidades extremamente conservadoras, mas voltadas, sobretudo, para a área jurídica. São, porém, excelentes universidades, e têm como objetivo formar advogados para trabalhar em Washington, onde estariam mais perto dos acontecimentos políticos do país. Os juízes formados nessas universidades poderão exercer cargos importantes no país, como, por exemplo, o de juiz da Suprema Corte.

Outra área em que a direita atua sistematicamente é a área editorial. A autora fala dos supermercados Walmart que vendem em suas lojas os livros da série Left Behind. Esses livros fazem mais sucesso nos Estados Unidos (ou fizeram) do que a série de Harry Potter. O título (deixados para trás) faz referência ao dia do arrebatamento, em que Cristo virá julgar os homens e levará para a Nova Jerusalém celestial os justos. Os outros, os pecadores, serão deixados para trás. Trata-se de uma série de livros ridículos, mal escritos e muito tendenciosos. Para ser ter uma ideia, em um deles, a União Soviética ataca Israel, o Estado sagrado. Os aviões e mísseis soviéticos caem no país sem causar dano algum. São tantos aviões e tantos mísseis que viram sucata de ferro, que farão com que Israel se torne líder mundial na exportação de aço.

Há também os parques temáticos, mencionados no livro, com temas religiosos. São diversas disneylândias, que mostram aberrações como Adão e Eva no Paraíso, cercados por diversos animais, inclusive dinossauros. Há também um passeio sobre trilhos por uma clínica de aborto, uma espécie de trem fantasma, destinado a assustar as pessoas.

Outra coisa que espanta no livro é a influência exercida por pesquisadores em debates científicos. Há uma grupo de intelectuais, com mestrado e doutorado, que procuram atacar sistematicamente a Teoria da evolução das espécies. E não se trata, segunda a autora, de gente estúpida, mas de debatedores inflexíveis com sólida formação acadêmica.

Por outro lado, há as fundações de fomento à pesquisa. A maioria delas (se não, todas) são organizações privadas. Muitas chegam a sustentar universidades inteiras. Universidades inteiras dependem dessas instituições para sobreviver. Essas organizações privadas recebem dinheiro das igrejas e determinam que tipo de pesquisa deve ou não ser patrocinada. São elas que, na maioria dos casos, barram pesquisas sobre células-tronco, por exemplo.

E a loucura ão para por aí. É um ataque, que vem se formando desde o início do século XX contra o Iluminismo, a idade da razão.

A autora menciona o caso do famoso “julgamento do macaco”, no qual um professor do Estado do Tennessee foi preso por ensinar na escola a teoria da evolução das espécies.

Há também o caso da AIPAC (The American Israel Public Committee), um organização sionista que se tornou o segundo maior financiador de campanha os Estados Unidos. Todo candidato à presidência precisa ir até à sede da AIPAC para fazer um discurso prometendo ajuda a Israel, par obter a bênção da entidade. Sem ela, nenhum candidato se elege.

Por fim, Susan George menciona o caso do avanço da Igreja Católica nos Estados Unidos, uma nação historicamente protestante. Hoje, já são mais de 70 milhões de católicos. E já existem membros da Igreja Católica na Suprema Corte do país.

É um livro importantíssimo para quem quer entender os Estados Unidos. Mas não é um livro anti-americano, como poderíamos pensar. É, na verdade, um livro de amor ao país, escrito por uma norte-americana (que vive na França), mas que percebe a deterioração moral e espiritual pela qual o país vem passando nas últimas décadas.

Por enquanto, porém, temos de nos contentar com a versão em inglês ou com o original em francês. A tradução que fiz encontra-se dentro de uma gaveta que, talvez, algum dia venha a ser aberta.

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